Antes de um primeiro consumo, há uma infância e há uma responsabilidade coletiva

Se a travessia de Ulisses nos ensina alguma coisa, é que nenhuma viagem se vence apenas pela força de um herói.
Talvez também nós precisemos de nos lembrar disso quando falamos de dependências, comportamentos de risco e sofrimento na infância e na adolescência.
Quando surge uma nova substância, quando aumentam os consumos, quando uma escola enfrenta episódios de violência ou quando uma criança ou adolescente pede ajuda, é natural que procuremos respostas nos lugares onde o problema já se tornou visível: na saúde, na justiça, na intervenção social, na escola, nas políticas de prevenção.
E importa. Importa muito.
Mas talvez estejamos demasiado focados em combater as consequências e pouco atentos às condições que, muito antes delas surgirem, tornam determinados caminhos mais prováveis.
A verdadeira prevenção começa muito antes da primeira experiência de consumo.
Começa na infância.
Começa na forma como uma sociedade compreende o desenvolvimento humano e na responsabilidade coletiva que assume perante crianças e adolescentes que ainda estão a construir os seus recursos internos para lidar com o mundo.
O cérebro adolescente não é um cérebro adulto em tamanho reduzido. É um cérebro em desenvolvimento, particularmente sensível à recompensa, à novidade, à influência social e à pertença. Ao mesmo tempo que procura autonomia, continua a necessitar de adultos capazes de oferecer orientação, limites, previsibilidade e segurança.
É precisamente nesta tensão entre “quero ser independente” e “ainda preciso de ti” que a presença adulta, madura e responsável, se torna tão importante.
Por isso, proteger a infância não é impedir o crescimento. É criar as condições para que ele aconteça ao ritmo da própria natureza.
E é aqui que talvez precisemos de olhar para aquilo que estamos, coletivamente, a normalizar.
Quando crianças de 12, 13 ou 14 anos passam a circular pela noite como se fossem adultos.
Quando o álcool e o tabaco continuam a ser comercializados e banalizados como rituais de crescimento e pertença.
Quando sair da escola durante as aulas, consumir à sua porta ou permanecer sem supervisão num mundo digital sem fronteiras se tornam paisagens habituais.
Quando, na secretária da escola, existe uma janela permanentemente aberta para um mundo inteiro — não apenas para o recreio.
Quando o telemóvel deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a manter os pares permanentemente ligados, reduzindo os espaços de separação, silêncio e interioridade de que também precisamos para nos diferenciarmos sem deixarmos de pertencer.
Porque pertencer não significa estar permanentemente ligado.
A individuação precisa de fronteiras.
Precisamos de aprender que podemos gostar dos outros sem pensar como eles; estar ligados sem estar disponíveis a toda a hora; pertencer sem aparecer sempre; estar incluído no grupo mesmo fazendo escolhas diferentes.
E isso também se aprende.
Aprende-se quando existem adultos suficientemente presentes para ajudar uma criança a construir essa diferença.
Mas o problema não está apenas nas crianças.
Está também nos adultos.
Quando aqueles que deveriam inspirar, orientar e proteger — na família, na escola, nas atividades, nos locais de comércio, na comunidade — se encontram tão exaustos ou desconectados que já só conseguem desistir, gritar, humilhar ou ignorar necessidades.
Quando pais e mães, tantas vezes isolados e sobrecarregados, perdem os recursos necessários para sustentar a relação e a liderança de que os filhos continuam a precisar.
Quando confundimos autoridade com autoritarismo e, numa tentativa de não repetir modelos antigos, acabamos por retirar aos adultos uma função que continua a ser essencial: liderar o cuidado.
Quando a procura legítima de bem-estar do adulto deixa de conseguir reconhecer que as necessidades da criança são diferentes das suas.
Quando CASA — esse primeiro lugar de pertença, segurança e construção da identidade — passa a ser, para algumas crianças, sobretudo um lugar de separação e solidão.
Quando a pertença, o reconhecimento e o não julgamento são encontrados predominantemente nos corredores da escola, nos jardins, no grupo de pares, no digital ou na noite.
Quando sair cada vez mais cedo de casa ou passar cada vez mais horas no mundo digital começa a ser entendido como sinal inevitável de crescimento.
Quando a tensão, a frustração, a espera e o desconforto próprios do desenvolvimento infantil se tornam tão difíceis de tolerar pelos adultos que sentimos necessidade de os subtrair da experiência da criança.
Quando esperamos que todas as crianças pensem, sintam, aprendam e se comportem da mesma maneira.
A natureza humana acaba sempre por reclamar aquilo que nunca perdeu: a sua irrepetível individualidade. E quando não existem espaços seguros para essa individualidade existir, procuramos outros lugares onde possamos ser vistos.
É por isso que não podemos olhar para os comportamentos de risco apenas como escolhas individuais. Eles acontecem dentro de contextos.
Dentro de relações.
Dentro de famílias.
Dentro de escolas.
Dentro de comunidades.
Dentro de uma determinada cultura.
E dentro de uma sociedade que, diariamente, transmite às crianças mensagens sobre aquilo que significa crescer.
Não são necessariamente acontecimentos extraordinários que alteram o percurso de desenvolvimento. São, muitas vezes, pequenas cedências acumuladas.
Um limite que não colocámos.
Uma conversa que adiámos.
Uma noite em que não perguntámos onde estava.
Um sofrimento que não conseguimos acompanhar.
Um adulto que desistiu.
Uma família que não recebeu apoio.
Uma escola que ficou sem recursos.
Uma comunidade que normalizou.
Uma lei que existe, mas deixou de ser vivida como compromisso coletivo.
Uma criança que aprendeu, demasiado cedo, que é no grupo de pares que precisa de procurar aquilo que não encontra noutro lugar.
E quando a referência deixa de ser o adulto e passa a ser predominantemente o grupo de pares, estamos a pedir a cérebros ainda imaturos que tomem decisões para as quais ainda estão a construir os recursos necessários.
É por isso que prevenir não pode significar apenas impedir o consumo.
Prevenir é construir as condições que tornam menos necessário procurar pertença, regulação emocional, reconhecimento e identidade em contextos potencialmente destrutivos.
É fortalecer vínculos.
É apoiar famílias.
É criar escolas emocionalmente seguras e exigentes.
É devolver autoridade aos adultos significativos.
É ensinar crianças e adolescentes a reconhecer e regular emoções sem lhes retirar a experiência necessária de sentir.
É estabelecer limites claros sem romper a relação.
É proteger tempos de infância.
É criar espaços onde estar aborrecido, frustrado, sozinho ou desconfortável não seja imediatamente considerado um problema a eliminar.
É permitir que uma criança cresça sem ter de provar demasiado cedo que já não precisa de ser criança.
E é também reconhecer que nenhuma família consegue fazer isto sozinha.
Precisamos de uma comunidade inteira.
De professores.
De psicólogos.
De profissionais de saúde.
De técnicos sociais.
De forças de segurança.
De comerciantes.
De decisores políticos.
De vizinhos.
De pais e mães.
De todos os adultos que, de alguma forma, participam no mundo onde uma criança cresce.
Porque uma criança não cresce apenas dentro de casa. Cresce no mundo que construímos à sua volta.
Talvez esta seja uma das maiores mudanças de paradigma de que precisamos: deixar de perguntar apenas “o que há de errado com esta criança?” e começar a perguntar também: “O que está a acontecer à volta dela?”
Que relações encontrou?
Onde encontrou pertença?
Quem estava disponível quando sofreu?
Quem lhe ensinou a lidar com a frustração?
Quem colocou limites?
Quem acreditou nela?
Que modelo de adulto encontrou?
Que mundo digital lhe entregámos?
Que noite lhe permitimos viver?
Que bens lhe colocamos à disposição?
Que infância lhe estamos a oferecer?
A prevenção começa aí.
Muito antes da primeira droga.
Muito antes da primeira noite de consumo.
Muito antes do primeiro comportamento de risco.
Começa quando uma sociedade inteira decide que proteger a infância não é apenas uma responsabilidade dos pais — é uma responsabilidade coletiva.
E mesmo quando o mar parece demasiado revolto, nenhuma palavra, nenhum limite colocado com firmeza e afeto, nenhuma conversa, nenhuma decisão de um professor, de um comerciante, de um pai, de uma mãe, de um vizinho ou de um governante é insignificante.
Todos fazemos parte da mesma travessia. E cada gesto pode alterar o rumo da vida de uma criança.
Porque, no fim, talvez a verdadeira questão não seja apenas como resgatar quem já está em perigo.
É perguntar:
Que sociedade precisamos de construir para que tantas crianças não tenham de chegar tão perto do precipício?
Ulisses precisou da sua tripulação para chegar a Ítaca.
Também nós.
E talvez a nossa Ítaca seja uma sociedade onde crescer não signifique aproximar-se cada vez mais cedo de tudo aquilo para que ainda não se está preparado.
Uma sociedade que protege a infância não está a atrasar o crescimento. Está a criar as condições para que ele possa acontecer.
E, talvez, seja precisamente aí que começa a verdadeira prevenção!
Cristina Dutra



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